quarta-feira, novembro 09, 2011

Encontro de Outono/Gaia/Outubro 2011



A SOPEAM teve o seu habitual "Encontro de Outono", em Gaia.
Aqui fica a notícia, não esquecendo a primorosa organização do nosso sócio José Dias Egipto (JoséPalha)e Miguel Miranda com a colaboração da Liga dos Amigos do Centro de Saúde Soares dos Reis.


Notícia fornecida pela Vice-Presidente da SOPEAM:
Desculpa só agora enviar noticias da Reunião de Outono para o blog
Além dos encómios da excelente organização do José Palha e Miguel Miranda com a colaboração muito "esforçada" das respectivas Esposas Mila e Fernanda e do alto nivel dos conferencistas e comunicações livres....
Houve ainda o lançamento do livro de José Manuel Bento Sampaio:
" SAL DA VIDA - estórias de um médico andarilho por África e Timor Leste "
Mando-te em anexo um texto de balanço do José Palha que julgo resume muito bem a Reunião e fotos do descerramento da lápide no Mosteiro de Grijó assinalando a homenagem da SOPEAM a Júlio Dinis, assim como foto junto ao Eça no solar de Resende.


Em jeito de balanço (Texto do nosso colega Dr. José Palha)

Este Encontro de Outono da SOPEAM foi para mim o pretexto para revisitar a vida e obra de Júlio Dinis – que tinha deixado na meninice quando, a conselho de meu pai, devorei “juvenilmente” os seus livros.
Por outro lado foi também um reencontro com o património histórico, cultural e arquitectónico de V.N. de Gaia, particularmente com as terras de Grijó e o seu mosteiro de S. Salvador, que já conhecia mas de forma muito superficial e ainda não relacionado com a vida e obra de Júlio Dinis.
Em boa hora acedi ao convite que a Direcção da SOPEAM me fez em Maio em Lisboa para organizar, em parceria com o Miguel Miranda, este Encontro em Gaia.

Este revisitar de que falei trouxe-me algumas reflexões que gostaria de partilhar convosco.

- Em 1º lugar o médico e cidadão, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, e as suas tristes circunstancias, que faleceu com apenas 31 anos de vida. Os seus pais tiveram 9 filhos; pois bem estas onze pessoas faleceram vítimas da tuberculose (não sabemos ao certo de que morreu o pai)!
Hoje que nos preocupamos tanto com o flagelo da SIDA, que, geralmente, apenas afecta os grupos de risco no mundo ocidental e que presentemente já pode ter cura, imaginemos o que seria aquele tempo em que todos estavam sujeitos a contrair uma doença altamente contagiosa, sem tratamento e terrivelmente fatal! Quão curtas eram aquelas vidas!
Júlio Dinis morreu com apenas 31 anos e mesmo assim deixou-nos uma obra literária magnífica e diversificada. Que obra nos deixaria se tivesse vivido plenamente até aos 70 ou 80 anos, se pensarmos que na juventude já nos mostra tanto talento e maturidade?

- Outro objecto da minha reflexão foi a faceta de Júlio Dinis de intervenção social e politica que subjaz na sua obra e que só agora, na maturidade da vida, me é dado reconhecer. Naquele tempo, como agora, o país vivia mergulhado não só numa enorme crise económica e social mas também numa crise política e de valores éticos e morais. Ele critica a hipocrisia dos servidores da Igreja e do Estado, denuncia a corrupção, o tráfico de influências e a falta de valores de uma forma não panfletária mas sub-repticiamente, no meio da trama dos seus romances. Afinal pouco progredimos desde então!...
É ele que nos diz, ironicamente, quando estava de partida para a ilha da Madeira interrompendo mais uma vez a sua carreira de médico e de universitário para se ir tratar com os “bons ares”:
“ O Estado lucra este ano comigo um dinheirão e tenho certo orgulho em pensar que dou no monstro do deficit uma dentada que lhe há-de ficar na memória….se a Pátria se não salva com isto, não sei então o que há-de ser da Pátria. Eu a precisar de tónicos e o governo a pôr-me na medicação antiflogistica”

- Em relação a Grijó e ao seu mosteiro impressionou-me a vastidão dos seus domínios e a sua importância no início da nossa nacionalidade. O couto do mosteiro era um dos maiores de Portugal e o mosteiro um dos mais ricos. As suas terras, rendas e foros estendiam-se desde o concelho da Maia e Porto até Coimbra e seus arrabaldes. Por outro lado vim a saber - eu que sou de Braga e que sabia da importância do seu arcebispo para o reconhecimento de Portugal como estado independente - que este homem D. João Peculiar foi o reformador deste mosteiro e que daqui foi para o Porto para bispo e posteriormente, no tempo de Afonso Henriques, para arcebispo de Braga. Devido também à influencia deste poderoso clérigo o mosteiro de Grijó passou a ser imediato de Roma, o que equivalia a não reconhecer por autoridade superior a ele, senão o papa.
Impressionou-me também saber do papel importantíssimo que desempenhou durante as invasões francesas (a 2ª) e na guerra civil entre os partidários de D. Pedro e D. Miguel. São tantos os episódios sangrentos que ocorreram nas suas imediações e tão grande o papel do mosteiro no socorro dos feridos que a sua farmácia e enfermarias ficaram célebres como as melhores e mais avançadas para a época. “Os frades possuíam uma farmácia fabulosa, com os medicamentos mais avançados para a época. Cultivavam a papoila branca para obter ópio, substância que era utilizada como anestesia nas amputações de membros, uma técnica cirúrgica que evoluiu imenso na sequência das invasões francesas. O cultivo desta substância era de tal forma importante, que funcionou no Mosteiro a Sociedade Portuense do Anphião. Um dos elementos desta sociedade chegou mesmo a propor que fosse Portugal a vender ópio à China e não os ingleses, que acabaram por dominar a exportação desta substância para o Oriente. Além do ópio, cultivavam-se inúmeras plantas medicinais com que se elaboravam os preparados galénicos, utilizados para combater as doenças antes de aparecerem os medicamentos sintéticos”.
- Outro aspecto interessante, que trago, aqui é a polémica, que desconhecia, entre Grijó e Ovar sobre as personagens e o enquadramento dos seus romances. Cada uma destas terras reivindica para si as personagens, os lugares, as paisagens, as casas, que Júlio Dinis descreve nos seus romances principais. Nas duas localidades a principal escola tem o nome de Júlio Dinis e em cada uma se celebra anualmente o dia do fundador. Há livros, artigos, teses, que defendem uma e outra parte. Agrada-me saber que, apesar de tudo, a obra de Júlio Dinis está tão viva na mente de tantos alunos (todos são obrigados a lê-la) e que os professores fazem da sua obra o seu projecto de escola.

A última reflexão é de carácter pessoal e prende-se com as iniciativas deste género que muitas vezes, por inércia e abulia, não fazemos. As preocupações e o trabalho que uma actividade, mesmo modesta como está, acarreta são largamente compensadas pelo convívio com pessoas com preocupações e interesses iguais aos nossos que nos fazem esquecer os dias mais cinzentos, porque monótonos e rotineiros, do nosso dia-a-dia profissional.
Não há dúvida que “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”!

José Dias Egipto (Pseudónimo de José Palha).

Gaia 16 de Outubro de 2011

Nota de rodapé:
A SOPEAM agradece ao Dr. José Palha este belo texto que sintetiza o espírito cultural e de amizade bem patente no Encontro de Outono 2011.